Somos o que consumimos. O que somos então?


Quando Gregg Segal apresentou seu trabalho 'Daily Bread' em 2018 me fez pensar muito sobre o quanto devemos sacrificar a nossa saúde em benefício de uma rotina mais prática. Sim, em geral abrimos mão de alimentos frescos e integrais pra ganhar dois ou três minutos por refeição pronta em um balcão qualquer. Parei pra re-avaliar minha alimentação e me peguei questionando quanto tempo eu gasto pra descascar uma banana. Ou para tirar uma maçã da bolsa. Ou mesmo para abrir um tutorial do YouTube e preparar meus próprios biscoitos. E se eu tivesse que, toda semana, fazer algo diferente? Eu teria tempo para isso? Uma das questões postas pelo trabalho de Seggal é, justamente, a repetição que é a nossa rotina alimentar. 


A avaliação correu com facilidade e a conclusão foi fácil: a praticidade não é real. O que há de real em nossa alimentação ultraprocessada é o consumismo imposto por milhares de propagandas nos busdoors, TVs, telemóveis, cabines de elevador. O que comemos, muitas das vezes, não deveríamos nem mesmo chamar de alimento. São ingredientes coloridos e aromatizados para parecer alimento mas nosso corpo nem mesmo é capaz de processar aquilo. Comer fora não é mais prático, é mais cool porque atende a demanda de consumo que nos é imposta. O que se espera é que façamos parte dessa gigante economia circulante que não pode parar e depende de nós. Quase.



Domingo de tarde, que já é dominado pela preguiça, cozinho uma grande leva de grãos e legumes, faço uma sequência de sete a dez potinhos de refeição pronta que vai para o freezer com uma etiqueta bem simples em fita crepe. Durante a semana, todo o meu trabalho dedicado umas refeições se resume a pegar um potinho e colocar na bolsa. O tempo de chegar a minha hora de almoço é o tempo dele descongelar a comida. No meu armário há um moedor de pimentas e um azeite. Está pronto. Quando chego do trabalho e as demandas com meu filho não são muitas, faço ainda um suco para o lanche da tarde com uma garrafinha extra pra acompanhar o almoço do dia seguinte. Nosso pão vem do mercado, mas quando temos tempo fazemos nossa receita pessoal, personalizável de acordo com o que há na dispensa. Os lanches mudaram, a qualidade dos alimentos mudou. 


Não, eu não comia um monte de besteiras ao longo do dia e sempre mantive as visitas ao nutricionista como prática mas até eles apelam, vez por outra pra um pacotinho na bolsa para as horas de maior correria. As fotos desse trabalho me fizeram pensar muito sobre o que entrava em mim e no meu filho e a busca por melhorias 'na nossa foto' passou a ser uma constante.
Agora, em meio a essa crise pandemica, parei pra observar o que temos em casa e o que temos comendo. Vejo as fotos compartilhadas por amigos em suas redes sociais e percebo que mesmo com tempo disponível para cozinhar e ter bons alimentos a mesa, a opção ainda é pelo processado, pelo delivery, pela praticidade como nós é vendida. Em um tempo tão bonito e tão introspectivo como a quarentena/quaresma ficou dificil não pensar sobre o que tem nos alimentado nas formas física e espiritual. Não é praticidade, nunca foi. Como não é tempo de se ver preso entre as paredes de casa. É tempo de aproveitar a proteção destas paredes e olhar para dentro. 
Deixo como sugestão outro trabalho do Segall, 'Sete dias de lixo' de 2014. A arte tem que ser capaz de nos transformar para ter sentido de ser e esse fotógrafo tem sido capaz de me transformar vez após vez. 


Fiquem bem, fiquem em casa. Aproveite o tempo para se rever. 


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