Como e porque montar um centro ecumênico no trabalho


Essa é a hora exata em que os olhos se enchem de sangue e que os discursos mais acalorados saem pela boca, direto das vísceras, sem censura... Falar sobre religião nos dias de hoje é buscar um motivo para se estressar e começar uma briga com metade de seus conhecidos. Uma briga gratuita, sem justificativa e definitiva. Não era para ser assim.

Eu não sou grande estudiosa de religiões mas conheço pessoas que vivem sob diferentes credos e posso garantir que todas falam sobre a mesma coisa com nomes e leituras diferentes de uma mesma experiência divina. As religiões falam sobre amor, compartilhamento e construção.

As religiões são utilizadas com muita frequência por homens que têm por desejo dominar outros menos fortes ou menos esclarecidos. Falar sobre este tema deveria ajudar pessoas a entender a diferença entre a religião e o homem 'de farda'. Me perdoem a farda, mesmo que entre aspas, mas é importante ressaltar que é um homem (ou mulher) que está à frente dos cultos, mas a Igreja não é esta pessoa. Os sacerdotes têm papel fundamental no crescimento e manutenção da nossa fé, mas a Igreja vai muito além destes.


Eu sou católica e já falei aqui em outra oportunidade que a minha religião não tem qualquer relação com o que escrevo mas como pessoa de fé (e muitos de nós o somos em muitas fés diferentes, se posso colocar assim), posso garantir que a fé não está limitada ao líder ou às suas práticas. Felizmente não.

Feliz de nós que encontramos um líder que é, além de grande orador, um grande exemplo de fé. Eu mesma já passei por alguns grandes desapontamentos antes de encontrar em meu caminho alguns padres que alimentassem a minha fé na igreja que eu vivo, que fossem exemplos vivos de generosidade e compaixão. Hoje, felizmente, tenho algumas opções de missas que frequento sem problemas e com o coração cheio de alegria.

A história dos homens e da relação destes com as igrejas é suja e contamina o que de bom se produz  em qualquer igreja com descrença e suspeitas mas o exercício da fé é um grande motivador de superação e esperança em um mundo melhor para quem o pratica. A história da religião, não obstante, se confunde com a história dos homens, de forma que não pode ser ignorada.

A esse respeito, eu mesma já tive a feliz oportunidade de estar no Vaticano e, independente da minha própria religião, vi a evolução do homem acontecer bem na frente dos meus olhos enquanto caminhava por aquele imenso museu composto por capelas, igrejas e galerias de arte. Não tem como ignorar a presença da religião na nossa construção. Por mais que tenha sido uma lição muito dura, algumas vezes, aprendemos muito se olharmos para esta relação forte que o homem tem com a fé.

Parece piegas, eu sei, mas exercitar a sua fé, viver a sua fé e se sentir repleto desta é um tremendo conforto. Eu vivo uma igreja que prega que todos devemos nos dedicar a multiplicar o nosso grupo através da pregação das palavras em nosso livro sagrado. Isso acontece em algumas outras religiões também. São poucos os credos que não tem por objetivo se multiplicar pela conversão de outros.


A multiplicação deste saber tão particular e pessoal deve ser feita com muita atenção e cuidado porque o receptor pode não entender a mensagem ou pode até mesmo se sentir ofendido pela sua tentativa de compartilhar o que há de melhor em você. No ambiente de trabalho isso é ainda mais importante e delicado..

Mas meu objetivo hoje não é esse. Não acho que as empresas devam ter igrejas dentro ou que devam pregar qualquer crença mas acho que a presença da fé na rotina das pessoas é importantíssimo e as empresas podem permitir o exercício desta em algum lugar. Permitir que os funcionários tenham um espaço para a prática de suas funções religiosas - quais sejam - é mostrar a todos que sua felicidade importa. Mais do que isso, garante a todos privacidade. Tanto aos que rezam quanto aos que não querem rezar. 

Um centro ecumênico não carece de obra ou de grande investimento. Pense em um lugar reservado e silencioso onde você pudesse ouvir os seus próprios botões. Este é o lugar de que precisa. Não é preciso montar um templo, basta que as pessoas possam ficar à vontade para sentar, ajoelhar ou se prostrar ao chão. Não acho adequado permitir incenso ou velas porque é um lugar compartilhado mas vale o diálogo com todos que utilizarem o espaço.

Tentei ser o mais abrangente possível e identifiquei, através da pesquisa do IBGE de 2016, as dez maiores religiões praticadas no Brasil. São estes os católicos, evangélicos, testemunhas de Jeová, umbandistas, espíritas, candomblecistas, judeus, exotéricos, budistas e seguidores de religiões orientais. Aqui na minha região, entretanto, eu consigo identificar forte presença de islâmicos. Curioso, nada sobre as matrizes indígenas nas pesquisas.... Não vou entrar neste mérito mas nos oferece alguma coisa para pensar a respeito.


Uma referência estética a estes grupos pode estar na parede e alguns compartilham símbolos, o que facilita o seu trabalho. Pense em um cômodo com três paredes divididas em três "altares" diferentes. Só não vai existir um altar físico. Uma imagem na parede faz o serviço e presta uma homenagem a cada um. Existem outras religiões e até a religião dos sem religião - ainda que tementes a algum Deus - mas na impossibilidade de agradar a todos, façamos o nosso melhor.

Repito para que fique claro: não é uma questão de pregar qualquer religião em ambiente de trabalho. Isso é errado desde sempre e sempre será. Impor uma religião contradiz tudo que se prega, pelo menos até onde posso entender. Estamos falando de um lugar para que as pessoas possam garantir que terão um dia proveitoso e pleno, dentro das necessidades de cada um.


Vale lembrar que todo diálogo deve partir de respeito e compreensão. 


Para ler a postagem sobre a parábola do semeador, clique aqui. Eu recomendo mas sou suspeita, certo?

Carol Chilinque Self-Coaching
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