Um açougueiro trabalhava em um grande abatedouro de uma grande cidade já fazia cinco anos. Todos os dias chegava para trabalhar cinco minutos antes do seu expediente começar e saía bem na hora que encerrava. Não se destacava por seu trabalho na empresa e nem mesmo tinha vontade de fazer carreira por lá. Gostava do que fazia e fazia bem feito. Nem fazia de mais, nem fazia de menos.
Todos os dias ele chegava para trabalhar com a mesma cara de quem dormiu bem de noite e dava bom dia ao segurança, que respondia com um sorriso diplomático. Sua rotina estava escrita pelos próximos trinta anos e isso não o incomodava. Ele tinha certeza de que gostaria de fazer aquilo pelo resto da vida.
Um dia, ao deixar um lote de T-bones no freezer, a porta travou e ele não conseguiu mais abrir. Por alguma razão a trava de emergência não estava funcionando e ele se sentou, desolado, esperando que alguém fosse libertá-lo. As horas foram se passando e ninguém vinha. Era de se esperar pois ele trabalhava sozinho naquele setor e ninguém tinha por hábito por ali.
Ele não era muito de jogar conversa fora, então não tinha muitos amigos. Na verdade, ninguém nunca ia até lá ver como ele estava. Começou a ficar muito preocupado e desejou ser como os colegas do setor de filés e andar com o celular no bolso mesmo sendo proibido. Começou a sentir uma forte dor de cabeça e sabia que seu corpo não aguentaria aquela temperatura por muito tempo mais. Começou a rezar em silêncio.
Já passava das sete horas quando ouviu a porta se abrindo. Mal podia abrir os olhos pois o sono já era incontrolável. Tentou dizer alguma coisa mas desmaiou. Acordou na enfermaria, coberto por mantas e com duas pessoas ao seu lado: o médico do trabalho e o segurança. Não entendeu como alguém pode encontrá-lo ainda com vida e o homem de farda explicou.
"-Trabalho aqui faz oito anos e só você me dá bom dia quando chega e boa tarde quando sai. Quando não deu o 'boa tarde' eu percebi que tinha alguma coisa errada porque lembrei do seu bom dia e fui te procurar. Encontrei você já apagado no chão freezer."
Não preciso falar mais nada, certo? Gostaria de fazer uma pergunta, entretanto: se você fosse o açougueiro, alguém voltaria no freezer para te procurar? Provocando ainda mais a sua reflexão acerca da sua rotina, pergunto mais: você está dando o devido reconhecimento aos açougueiros da na vida?


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