O empreendedorismo vai salvar o Brasil?

Atualmente o Brasil ocupa o nono lugar no ranking das maiores economias do mundo e, apesar de estarmos em meio a uma grande crise política que se reflete enormemente nas nossas micro e macro economias, alguns setores começam a mostrar sinais de retomada de crescimento.

O IBGE é o órgão responsável por medir o nosso crescimento (positivo ou negativo que seja) e estima que tenhamos mais de 90 milhões de pessoas ativas no mercado de trabalho. São mais de 90 milhões de pessoas produzindo riquezas e desenvolvendo tecnologias. Essa é a teoria.
Mas nosso país é muito mais respeitado enquanto fornecedor de matéria prima barata do que como exponente mundial em desenvolvimento de tecnologias. Vou lançar aqui uma teoria muito ousada mas espero que me deem tempo de desenvolver. Estamos vivendo ainda sob a mentalidade de colônia que fomos.

Isso, assim mesmo. Ainda fornecemos o nosso melhor em troca de um tapinha nas costas dos nossos grandes senhores que, estes sim, merecem o que há de melhor. Esse sentimento é o que corrói as nossas chances de desenvolver tecnologias e nos destacar pelo nosso potencial intelectual em vez de sermos somente o braço forte.

Nada contra ser o braço forte na relação mas é preciso ser o cérebro às vezes. O cérebro detém a minúcia da informação e não é só a força, mas também é. Porque digo isso? Porque não temos muita iniciativa enquanto detentores da tecnologia. A tecnologia é o valor maior em qualquer projeto e o retorno financeiro é duradouro. Enquanto durarem as patentes, o proprietário da informação vai ter retorno de seus investimentos iniciais e juros significativos, mais rendimentos.

Alguns poucos setores no Brasil tem se destacado pelo empreendedorismo. Um exemplo curioso é o das mulheres que têm buscado formas alternativas para manter a renda e estar presente em casa para cuidar dos filhos e se aprimorar profissionalmente. O Sebrae aponta um aumento anual de mais de 30% do empreendedorismo entre mulheres.

Ocorre que nem só as mulheres estão insatisfeitas com as condições do atual mercado profissional. Os custos de manter uma carta de funcionários que cubra a demanda de mão-de-obra de uma empresa ou indústria é elevadíssimo no Brasil, um dos mais altos do mundo. Isso tem levado empresários e sindicatos a pensarem formas alternativas de manter os vínculos fora das CLT.

Como todos sabemos, o governo aprovou uma reforma trabalhista que dificulta incrivelmente a vida dos empregados nesta negociação. O poder de decisão por manter o vínculo ainda cabe as duas partes mas o poder de barganha do empregador ficou consideravelmente maior.

O empreendedorismo vai ser afetado também por estas novas regras já que propõe novos modelos e novas relações de acordo com as condições do ambiente mercadológico. Agora os proponentes vão precisar de muito mais bom senso e atenção para fugir de sistemas empregado/empregador que sejam análogos a escravidão. Todas as relações, clássicas ou revisitadas, estarão sujeitas a erros fatais em suas propostas. Mais uma vez, os empregados não terão para onde correr. Caso não aceitem as condições ofertadas, uma imensa fila de desempregados aceitará qualquer coisa.

Isso tudo, ao que me parece, pode gerar uma diminuição dos salários e piora nas condições de trabalho já de início. No pior cenário que possa vir, vamos trabalhar sem folgas, com horas excessivas e sem férias pagas. O empreendedor vai ser beneficiado pela liberdade de trazer novas possibilidades para a mesa de negociação mas sentaremos do outro lado agarrados em pouco mais do que a nossa fé de que será razoável e justo.

Não consigo ver o cenário produtivo do Brasil mudando tão cedo. Ainda temos os mesmos grandes grupos  lucrando muito com o extrativismo, pecuária e a destruição massiva de nossos recursos, sem qualquer desenvolvimento de tecnologia construtiva. Tecnologia que poupe os nossos recursos ou que nos permita investir em novas frentes. Essa tecnologia continua sendo desenvolvida fora de nossas fronteiras.

Até mesmo a tecnologia que explora nossos recursos mais exclusivos vem sendo desenvolvida e registrada em nomes gringos. Isso quer dizer, trocando em  miúdos, que em pouco tempo tomar o chá de camomila da vovó para aliviar cólicas vai requerer o pagamento de royalties para alguém cujo nome tem mais consoantes do que vogais.

A única saída que consigo imaginar para esse cenário absolutamente desolador é em mais e mais jovens fugindo do rigor de um mercado exploratório e em recessão, buscando alternativas inteligentes e ousadas. Os jovens, por sua vez, buscam horário de trabalho mais flexíveis e a liberdade de inovar a cada momento. Ontem eu postei a crítica em um livro sobre o surgimento de duas grandes empresas mundias a partir de ideias simples de garotos normais. Para ler, clique aqui.

Não é preciso ser um super herói ou um milionário entediado para transformar a realidade com ideias que revisitam os lugares mais comuns. É no empreendedorismo dessas pessoas que está a saída para o nosso presente sofrido e nosso futuro ainda tão turvo. Algo em torno de 1/3 da população economicamente ativa no país trabalha, já trabalhou ou está planejando trabalhar em um empreendimento próprio. Isso é o retrato de uma nação que está dedicada a mostrar seu valor para além do braço forte.

Cerca de 70% desses novos negócios desaparece nos primeiros 42 meses mas isso não é indício de ideias ruins ou de serviços mal prestados. As principais causas ainda são o despreparo dos gestores. Abrir um negócio é mais do que criar uma logo bonita e ter um produto de qualidade. Lidar com os desafios diários de uma empresa requer jogo de cintura e dedicação. As taxas excessivamente altas e o alto custo de distribuição são alguns dos fatores apontados.

Nem mesmo a experiência é capaz de manter um novo negócio. As crises das últimas duas décadas tocaram a nossa mão de obra de forma decisiva. Os mais experientes (e custosos) empregados foram demitidos para a contatação de mão-de-obra fresca que trabalhe por menos. Essas pessoas tão mais experientes encontram grande dificuldade em se recolocar no mercado e acabam decidindo empreender e iniciar a própria marca. Eles têm a experiência mas não é suficiente em muitos casos.

A experiência do trabalhador é como funcionário e se limita à sua área de atuação.No caso de empresas menores, há um maior acesso ao processo produtivo de forma mais integral e isso aumenta as chances de um ex-funcionário se tornar concorrência significativa mas em geral as economias de uma vida inteira desaparecem e as dívidas tomam o seu lugar.

Mas o caminho é esse. Se preparar mais, formar maiores e melhores parcerias e oferecer o diferencial que as gigantes no mercado não tem condição de oferecer pois seus processos são, em geral, ultrapassados e engessados. O futuro do país, eu insisto, está em romper amarras com o passado, superar nosso lugar de provedores de material e desbravar esse universo empreendedor que conquista mais espaço ano após ano.

Para ter acesso aos dados levantados pelo SEBRAE, clique aqui. Não é a única pesquisa que encontrei neste tema mas talvez seja a mais completa.




C. C. Self-Coaching
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